Eu era funcionário do Banco do Brasil.
Trabalhava naquele momento no que se chamava de “boca de caixa”. Ficava logo atrás dos caixas. Tudo que eles recebiam, papéis de depósitos, cheques, guias de tudo que é imposto…ia tudo pra “boca de caixa”. Lá atrás, o infeliz do funcionário que no momento era eu, pegava aquele calhamaço de papéis, tinha que separar por tipo, por subtipo, fazer lotes e somar.
Cada papel tinha uma peculiaridade. Uns tinham que ser somados separados, outros tinham que pegar determinado valor em algum canto e fazer um crédito para alguma entidade. Era um verdadeiro inferno, principalmente para quem estava começando, como eu. Muito bem.
No final do dia, os caixas somavam tudo que tinham recebido e tudo que tinham pago. Dava X. Ai o responsável pela boca de caixa tinha que somar todos os pagamentos e todos os recebimentos daquele mundo de papelada, e tinha que dar X também. Se não desse X, havia uma diferença. A palavra mais odiada dentro do banco.
Quando a diferença era toda quebrada, tipo R$27,35, às vezes ficava mais fácil. Cada caixa corria seus lançamentos e achando o valor, aí era problema dele, ver o que foi, pra onde foi o papel. Mas quando dava um valor redondo, tipo R$20,00 aí era um caos. Tinham milhares de lançamentos nesse valor.
Um dia deu uma diferença. Não me lembro o valor. Só sei que a busca começou nos caixas e comigo, na boca do caixa. Alguém tinha errado alguma coisa. Com certeza.
Passou mais de uma hora de busca e nada. As esperanças de achar estavam praticamente esgotadas. Nisso me deu uma luz, botei a mão, discretamente, no bolso de trás da calça e senti um papel dentro. Suei. Não é possível…. fui no banheiro, me tranquei num dos sanitários, tirei o papel e estava lá.. ele. Comecei a me esforçar para passar o filme.
Eu estava indo atrás do meu chefe, para perguntar sobre o que fazer com aquele dito cujo que eu não conhecia a raça nem o destino.
- Ele foi lá pro fundo, disse um colega.
Fui atrás e …
- onde está o fulano? foi no banheiro.
Bom, não ia entrar no banheiro pra ficar papagaiando, numa situação embaraçosa. Aproveitei que a cantina era ali do lado, desci e fui tomar um cafezinho rápido, enquanto o chefe resolvia seu problema lá dentro.
Pra tomar o café, não poderia ficar com o papel na mão, me servir e segurar a chícara, lógico. Também não era besta de deixar o papel lá por cima, pra tomar meu café. Podia sujar, podia se extraviar, esquecer lá… e eu era um cara responsável. Guardei no bolso e tomei meu café.
Dessa parte pra frente é que não me lembro o que houve. Talvez alguém tenha berrado da escada pra eu subir, que tava tumultuado lá na boca de caixa. Alguma coisa me fez esquecer o bandido no bolso.
E lá estava eu no banheiro com o papel na mão e o povo rosnando furioso atrás do papel. Eu não podia chegar sorrindo e dizendo que achei no meu bolso. Eles eram mais velhos e mais pesados que eu. Iam me matar. Tinha que pensar em alguma coisa. Não tinha outro jeito. Eu tinha que “achar” o papel em algum lugar.
Entrei na área dos caixas.
- “Vamos procurar, pessoal, tem que tar por aqui”.
- Não adianta, já reviramos tudo, gaveta por gaveta, listagem….nem perca tempo. “
-. Ah… mas tem que tentar, não é possível sumir o papel”, eu disse esperançoso.
E fiquei ali, na minha, esperando uma deixa. Quando não estavam olhando, enfiei o papel na listagem de saldos e comecei a folhear.
De repente achei…
-.achei!.. ACHEI !!!- gritei todo feliz e aliviado, da mesma forma que ficaram todos os coleguinhas. Me abraçaram, bateram no meu ombro. Bom rapaz, etc…
O povo se dispersou, todos esgotados mas satisfeitos com mais um final de dia.
-Mas…estranho… revirei aquela listagem mil vezes…você também, não foi? murmurou aquele para o outro, a caminho da rua.
Mesmo assim, não me efetivaram no caixa. Fui substituto de caixa uns tempos, depois fui para a informática. Lá eu me dei bem. Sempre.