um dia daqueles
Acordei cedo, para quem não costuma acordar antes das 10, pois o comércio aqui só abre a essa hora, portanto, seria perda de tempo sair batendo perna a ver lojas fechadas, quando percebo que estava muito claro para ser as 07.30h que mostrava no despertador e sendo assim, levantei-me e olhei na bina que acusava quase 9 da manhã, hora que havia combinado com um dentista para mostrar seu logotipo e fazer-lhe um blog e mais que depressa tomei um achocolatado, peguei a moto e mal saí, reparei que estava falhando, logo seria por falta de gasolina, no que virei a chave para usar a reserva já que a clínica não era longe de casa e num instante estava lá conversando com ele, que foi logo ligando o micro, apanhou meu disquete, abriu os desenhos dos logos, achou muito legal e fomos ao escritório para, segundo ele, resolver a "parte dolorosa", ou seja, combinar o preço, que eu esperava que houvesse uma pequena entrada pra aliviar minha angustiosa falta de verba, mas não foi o que sucedeu, pois a proposta dele foi de dar uma parte na sexta que vem e na outra e na outra, e assim, o valor que ia me tirar do sufoco, foi-se diluindo, assim como minha esperança de ter algum hoje, e sendo assim tratei de me despedir o mais breve possível e correr atrás do prejuízo, pois haviam ainda dois clientes para visitar de manhã, uma locadora e um cabeleireiro e no primeiro eu fui, pois estava em cima da hora, que segundo o funcionário, ontem à noite, me dissera que o dono estaria por esse horário, o que de fato não aconteceu, partindo à caça do cabeleireiro, que, como informou a secretária, só estaria disponível entre 12 e 12.30h, e lá estava eu a falar com essa moça, que tratou de chamar o tal do Tiago, um trejeitoso rapaz que me ouviu com toda delicadeza do mundo, apresentei meu produto e ele fez aquela cara de quem gostou mas não poderia colaborar pois já havia entrado num outro patrocínio mas que daqui dois meses eu voltasse para rever a coisa, quando já ia me despedindo totalmente chateado por não ter conseguindo um mísero nesse dia, voltando à locadora na esperança vã de encontrar o tal que deveria ter estado lá, mas a moça que substituía o atendente de ontem me disse que ele ainda não havia chegado, mas que viria sim, já que era de São Paulo e tinha que aparecer e assim eu agradeci, já descendo as escadas de volta para casa sem sucesso financeiro nenhum, correndo ao telefone para solicitar à minha providencial mãe, uns trocados para comprar alguma coisa para os gatos, que são sete e suas fomes não querem saber se tem dinheiro ou não, voltando em seguida à moto, com medo de que talvez ela não chegasse de volta, e lá estava eu no supermercado próximo de casa, à procura de fígado de galinha, que eles gostam e que, na atual conjuntura eu poderia adquirir, mas como tudo estava para acontecer, não tinha o produto, correndo então a outro supermercado, que não é da minha preferência por ser longe e ter um tipo de ambiente que não me agrada, mas o importante era a comida para os gatos e isso vale qualquer sacrifício e verificando o preço do coração de boi, vi que não era má idéia, quando consultei o açougueiro que disse ter o tal fígado lá dentro, perguntou quanto eu queria, eu disse dois quilos, pesou, estava num preço promocional e nessa hora levantei as mãos pros céus pois aquilo daria para três dias e três noites, o que já me aliviava pelo menos em uma parte, e logo estava de volta para dividir o marmitex com minha mãe, o que temos feito faz uns três meses o que me facilita a vida, pois além de cuidar da comida dos bichanos ainda tenho que fazer a faxina onde eles ficam, fora lavar roupa, passar roupa, lavar louça, limpar a casa, molhar as plantas, inclusive uma avenca cheia de brotos que não pode ficar um dia sem água, misto portanto, de publicitário/faxineira, o que não me faz reclamar quanto a isso, desde que as coisas andem bem, ou seja, que o dinheiro apareça, pois tudo fica mais azul quando se tem dinheiro em caixa e sendo assim, logo que almocei, fui à janela ver como estava o tempo para poder sair, e sinto os raios do sol me queimarem, passando entre nuvens negras, o que deu para perceber a tempestade que se pronunciava, com sérias pretensões de dificultar minhas visitas, o que logo aconteceu, começando a chover, quando respirei fundo e deitei um pouco, pensando em tudo isso, em tudo que devo, em tudo que tenho para receber e em todo esse desencontro, pegando o violão para distrair enquanto a chuva caia sem piedade, eu cantava, pois segundo a lenda, quem canta seus males espanta, e olhava para o horizonte, onde avistava chuvas por ali também e nisso o tempo foi passando, o dia foi escurecendo, acabei não saindo para as visitas, ficando sem grana mas na esperança de amanhã visitar um advogado que marcou um retorno, depois de examinar minha proposta de anúncio há três dias, bastando confirmar umas questões éticas da profissão, pois não pode fazer qualquer coisa que dê na cabeça e assim, liguei o micro, já noite feita, abri um e-book com os Contos do Machado de Assis, iniciei a leitura meio como sem opção, já que minha tv queimou faz mais de ano e eu abençoei esse dia, livre de coisas que não quero ver nem ouvir falar mais, quando nisso me veio uma vontade de escrever sobre hoje, nada mais que um dia daqueles, daqueles que a gente pensa que nunca vai acabar, que a luz do fim do túnel se queimou, escrever tudo da forma como foi, da forma como eu assim escrevi. Ponto, depois de descrever meu dia em precisas mil palavras.
Escrito por
Carnerin em
00:40:51 |
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